Um ano depois, a XL Recordings publica um EP com o mesmo nome onde passam a estar disponíveis os temas "Achtung”, “All Soup Now”, “Time For Slurp” e “Whaleshark”, os tais que só alguns arrebanharam e que agora passam a ter edição oficial em rodela grande ou em duas pequenas rodelas de vinil. Para um deles, Andy Marshall partilhou com Josh Renaut a realização de um video a preto e branco ao lado dos parceiros de banda e digressão, a saber, o saxofonista Ignacio Salvadores e o baixista George Bass.
quinta-feira, 20 de junho de 2024
KING KRULE, SHHHHHH!
ANNA ST. LOUIS, MAIS UM REFRESCO!
Ao excelente álbum do ano passado "In The Air" de Anna St. Louis, que já estava bem recheado com onze canções, faltava afinal mais um refresco - "Farther Away" ficou, na altura, de fora mas foi no Inverno retomada pela própria e pelo produtor Jarvis Taveniere com o intuito de a concluir e libertar...
Para o efeito, juntou-se um vibrante saxofone de Adam Schatz da banda Landlady e o resultado, que a própria classifica como algo entre os Rolling Stones, Otis Redding e Lucinda Williams e, dizemos nós, Angel Olsen, é pura classe. Será que não haverá mais sobras?
quarta-feira, 19 de junho de 2024
BRANDEE YOUNGER EM ESPINHO!
terça-feira, 18 de junho de 2024
segunda-feira, 17 de junho de 2024
KARA JACKSON, GNRation, Braga, 15 de Junho de 2024
O aclamado álbum "Why Does the Earth Give Us People to Love?" que marcou o ano passado a estreia de Kara Jackson talvez seja premonitório quanto ao que chamamos folk. Confessional, mas arriscado, íntimo, mas partilhável, nele sucedem-se uma série de canções de narração destilada na reivindicação política, no desprezo social ou na marginalização de géneros. Tudo de poética muito própria e de uma propositada nudez da guitarra que se vai afiando, pausadamente, até ao limite.
Ao vivo, na escuridão colorida da esgotada sala minhoto, o que se esperava era isso mesmo - ouvir esses lamentos vincados pela sua voz densa e de adorno nas cordas salientes da acústica. Surpreendeu, logo a abrir, a versão de "Right, Wrong or Ready" de Karen Dalton, um género de introdução venerada para, logo de seguida, nos começar a agarrar com mais força aos originais - "No fun/party" foi, a esse nível, uma das cordas mais longas e subtis e de onde escorregou uma vulnerabilidade que se manteve latente, na sua sinceridade, até ao fim.
Mas outras cruezas como "Rat" ou o "Dickhead Blues", momentos altos do disco, tornaram-se também magistrais sequências melódicas e visuais que a plateia, de um respeito e silêncio religiosos, absorveu em nítido e contido deleite. Uma noite de viagens entre o amor e a perda, entre a compaixão e a repulsa que são, muitas das vezes, banais mas que na profundidade desta composição e voz se afiguraram de invulgar raridade e delicado arrepio. Obrigado, minha Kara!
RESSURGEM OS LITTLE WINGS!
São dez novos e curtos temas onde a voz inconfundível de Field se renova num género de vaudeville sarcástico registado à moda antiga, isto é, em fita analógica de quantidade limitada e, por isso, um contratempo que Field assumiu como facilitador, feliz e iluminado. Uma tarde bastou, então, para concluir a tarefa com ajuda de sete amigos músicos, sendo sua, como sempre, a fotografia da capa. Mais um excelente ressurgimento pop!
sábado, 15 de junho de 2024
SALSBURG E Cª, EMBALANDO SONHOS!
Do casamento de Nathan Salsburg com Joan Shelley nasceu, em 2021, a pequena Talya. Para embalar o sono da menina, Salsburg desenvolveu a capacidade de pegar-lhe ao colo como uma mão enquanto que, com a outra, tocava a parte de guitarra da canção "The Evidence" dos Lungfish, uma bande punk de Baltimore de que aprendeu a cantar e gostar enquanto jovem. O tema, no original de cinco minutos de duração, permitia-lhe estender o mantra repetitivo por muito mais tempo, o que durante vinte ou trinta minutos resultava num sono de Talia mais profundo e numa terapia para o próprio. No fundo, o tal efeito borboleta...
A canção fixou-se na sua mente de forma constante e decidiu pedir aos amigo Bonnie Prince Billy/Will Oldham e Tyler Trotter para registar uma longa versão com voz de Oldham, sintetizadores de Trotter e a sua guitarra, juntando-lhe uma outra cover dos Lungfish, no caso o tema "Hear the Childre Sing". O resultado é, claro, sonhador e viciante a que se deu uma imagem de capa de Daniel Higss, vocalista dos inspiradores Lungfish.
quarta-feira, 12 de junho de 2024
JOANNA STERNBERG+PULP+THE NATIONAL, Primavera Sound Porto, 8 de Junho de 2024
O aviso prévio não deixava dúvidas - este concerto é um encore! Os Pulp em versão grandes êxitos voltavam à Invicta ao fim de vinte e seis anos (Imperial ao Vivo, Rockódromo das Antas, 1998), tal como Jarvis Cocker haveria de recordar, e o desfile de canções cedo começou a fazer efeito agitador. Ao longo de uma hora e meia, o vocalista e letrista mítico da banda comandou, sem máculas, contratempos ou desculpas, a imensa plateia numa lição pop exemplar que teve em "Disco 2000" e "Do You Remember the First Time?" dois dos momentos mais esperados e celebrados. Assusta a eficácia, sem idade, destas pérolas tão bem assentes numa imaculada destreza instrumental, capacidade que se manteve perfeita de princípio ao fim. Quanto a "Common People" a terminar a contenda, quando algum dia se fizer o top dos melhores momentos do festival, não temos dúvidas que ela, a canção, deverá obrigatoriamente ocupar um dos três lugares do pódio. Brutal!
Os de Ohio sabem-no bem e deram-nos aquilo que melhor sabem fazer desde há vinte anos - canções robustas sobre a vida moderna nas suas minudências e que o professor Matt Berninger nos ensinou, desde sempre, a cantar como se se fossem nossas. E são. Alinhadas, em modo revisão da matéria dada, o concerto resultou numa monumental, e até épica, odisseia de catarse colectiva que confirmou que os The National têm dupla nacionalidade: são do mundo e são portugueses!
FRANÇOISE HARDY (1944-2024)
A vida de Françoise Hardy talvez se resuma, para muitos, a uma única canção que deu cume ao yé-yé - "Tous Les Garçons et Les Filles" foi motivo de êxito planetário, mas serviu para que artista ganhasse refúgio e receio quanto à vida pública e fama. Longe dos holofotes da imprensa, permitiu-lhe continuar a gravar discos em catadupa até final dos anos oitenta, onde sempre confirmou os seus dotes de cantora e compositora. Descubram, por favor, "La Question", o décimo primeiro longa-duração editado em 1971 que é um tesouro de bossa-nova luxuosa.
No dia de hoje, faleceu uma das mulheres mais bonitas e sensuais de sempre, uma beleza que nos últimos anos nunca escondeu um drama oncológico que se adivinhava fatal. Paz!
RICHARD HAWLEY EM VIGO!
No concerto, um dos quatro por Espanha, estão prometidas velhas e novas canções do mais recente "In This City They Call You Love", disco onde repousam mais algumas maravilhas como esta...
segunda-feira, 10 de junho de 2024
ANDRÉ HENRIQUES+CRUMB+THIS IS THE KIT+LAMBCHOP+TROPICAL FUCK STORM+LANA DEL REY+TIRZAH, Primavera Sound Porto, 7 de Junho de 2024
Sobre os Crumb... népia. Apresentados como "se gostares de Blonde Redhead, shoegaze que aquece a alma vais gostar disto", resta concluir que fomos enganados. Voz sofrível e teclas em constante desacerto, só o baixo nos pareceu no sítio certo e a resgatar alguma, muito pouca, da firmeza de uma banda aborrecida e demasiado previsível. Ao palco atribuído, de dimensão exagerada, juntou-se uma plateia imensa e distraída, já em fase de apropriação de espaço para ver o desfile da princesa Lana.
Ver os This Is The Kit de Kate Stables e Rozi Plain no alinhamento do festival foi mesmo um milagre. São já vinte anos de um projecto criativo de raiz na folk inglesa mas que se alonga, sem contemplações, a momentos de rock alternativo que, ao vivo, foram bem notórios. Fim de tarde nebuloso, britânico, e muitos na expectativa de testemunhar uma série de canções que se mostraram de frescura assinalável e de um sossego sonoro amaciador de ouvidos corrompidos. A simpatia de Stables e companhia emaranhou-se num risco instrumental de excelência e singeleza e que, caramba, já fazia falta. Precioso!
Novo milagre! A versão piano voz dos Lambchop, que passou pela Casa da Música em Novembro passado, encaixou-se na perfeição no palco ideal do recinto (Super Bock) apesar do ruído de fundo vindo do lado da Circunvalação. O figurão Kurt Wagner contínua inimitável, assumindo nesta fase uma postura de gozo e desafio aos ouvintes indefectíveis que não faltaram à chamada. Entre cigarros e copos de água (?), as histórias que escreveu para muitas das canções da banda assumem agora um protagonismo hipnótico que mereceu escuta atenta e fruição deleitosa mas a que Wagner foi dando pausas, ora sentado ora circulando de mãos nos bolsos nas proximidades, salientando a vibração do grande piano de Andrew Broder. Ficará na memória a versão de "Listening (to Lambchop by my self)" dos Sun June, uma daquelas jogadas sarcásticas em que Wagner sempre foi mestre, mesmo que a voz e o rumorejar pudessem ter soado um pouco mais nivelado por alto. Seja como for, inesquecível!
Os Tropical Fuck Storm são isso mesmo, uma tempestade de rock experimental, algum psicadelismo e muito punk e que é de difícil alívio. Entrados em palco, seguiram-se quarenta e cinco minutos de intensidade electrizante a que não é indiferente um entrosamento de anos a fio em bandas, palcos e estúdios e que tem no vocalista Gareth Lissiard o olho de um furacão imparável. Sem tempo para frescuras, só nos restou agarrá-los pela vibração e deixar-nos arrastar, tormenta fora, até ao final revoltoso. Contudo, uma acalmia espiritual aproximava-se...
Muita gente, demasiada gente. Muita confusão, demasiada confusão. Palco de insuficiente visão, demasiado insuficiente. Tagarelares irritantes em voz alta, demasiada tagarelares. Vendedores de cerveja ambulantes, demasiados vendedores. Seria fastidioso acrescentar os constrangimentos de um concerto de Lana Del Rey que não merecia tantas afrontas e desrespeitos. Concluir, mesmo assim, que o momento constituiu uma experiência marcante e sedutora em que, invariavelmente, se fez notar o nível extraordinário de uma voz e de um songbook duradoiro. Se há deusa na terra, o nome dela é Elisabete mas que todos veneramos como Lana, a Rainha!
(imaginar o que seria assistir a este concerto no antigo anfiteatro principal e natural, quinhentos metros para Sul, causa ainda mais arrepios... adiante.)
Cinco anos depois, a britânica Tirzah voltou a emergir em fim de noite para arranhar, sozinha, a penumbra. Orgânico, seco, ao bater do som submerge uma intimidade e volatilidade vocal a que é preciso dar tempo e envolvência. Tripante.
domingo, 9 de junho de 2024
ANA LUA CAIANO+ROYEL OTIS+BLONDE REDHEAD+AMYL AND THE SNIFFERS+PJ HARVEY+MITSKI+OBONGIAYAR+AMERICAN FOOTBALL, Primavera Sound Porto, 6 de Junho de 2024
À jovem Ana Lua Caiano tudo correu na perfeição - plateia envolvida e de braços abertos à sua música electro-popular onde os loops levam também com o bombo e o adufe como em mais nenhuma parte do mundo. Na construção de uma receita de raízes autóctones. é a sua auto-suficiência que surpreende pelo risco, pelo inusitado e pela novidade. Quase envergonhada com o tamanho do apoio e do suporte, não deverá ser difícil prever que esta lua vai crescer, rapidamente, até à lua cheia e brilhante!
De fenómeno do instagram para um palco principal de festival grande, aos Royel Otis também não faltou sorte. Com um público fronteiro já bem conhecedor das canções, a frescura deste indie pop australiano, descontraído e em jeito de boas vindas, espalhou-se colina acima e abaixo de forma festiva e dançarina. Não faltou a cover de "Murder on the Dancefloor", a tal que os catapultou nas redes e na rodagem de palcos, a motivar alargada pista de dança relvada. Podemos não ouvir mais falar deles, certo é que, pelo menos uma vez, compareceram na hora e no local certos... Fucking lindo!
Lembramos bem os Blonde Redhead numa primeira parte dos Interpol. Já lá vão muitos anos, demasiados anos. Soube, na altura, a pouco e talvez a vinda ao Porto servisse de retoma, mesmo que imprevisível, a um fino cordão de pop sonhador engrossado pelo recente e bom disco "Sit Down for Dinner". A expectativa não saiu completamente defraudada, mas o trio formado pelos gémeos Pace e Kazu Makino não se mostrou capaz de descolar de algum anacronismo embora o alinhamento se tenha revelado fermentado por uma crescente dose de tensão e nostalgia de quantidade e qualidade suficientes. Um novo exame, em nome próprio e na penumbra de uma sala, deveria estar já marcado.
Punk rock! Dito assim e nos dias de hoje, a cartilha do género, que já foi reescrita tantas vezes, pode fazer brotar alergias e constipações inesperadas mas elas não vêm, de certeza, da Austrália. A boa vacina foi-nos dada por Amyl and the Shiffers, uma daquelas picas que provoca reacções benéficas desde que seja aplicada pela enfermeira Amy Taylor de forma mais que testada - gritos, piruetas, bocas ou provocações deste calibre nunca fizeram, nem nunca farão, mal a ninguém. Arre!
De todas as PJ Harvey a que já assistimos, e foram já uma mão cheia, a versão magnífica que pairou sobre o Parque da Cidade foi a mais sublime. Quatro músicos enormes, som perfeito, apesar de alguns estranhos constrangimentos na ligação da guitarra, e um alinhamento imparável, ajudaram e ondularam o concerto a um género de tributo involuntário à mestria e genialidade de uma artista que se eleva, pela classe, a um olimpo exclusivo. Tudo de um bom gosto, tudo de um fineza, tudo de uma imaculabilidade de apuramento inesquecível e, arriscámos, imbatível.
Da jovem Mitski de guitarra eléctrica em punho que nos visitou em 2017 no mesmo local já pouco resta. A pequena nipo-americana agigantou-se num fenómeno artístico surpreendente que se alargou a públicos jovens e jovens adultos, paixão que bem se notou na gritaria instalada a cada início ou termino das canções. Houve razões bem suficientes para o chinfrim, ora não fosse Mitski uma cantora e compositora de eleição que se estende também, pelo corpo, a uma acrobata ou performer distintas. A uma sincronia, teatralidade e até dramatismo, juntou-se um notável jogo de luzes e de truques cenográficos que fizeram do concerto um espectáculo arrojado e de misteriosa maravilha pop. Cintilante!
Ao nigeriano Steven Umoh aka Obongiayar coube prestar alternativa ao palco principal do festival. A tarefa teve adesão considerável e Umoh aproveitou a dádiva para entrar em modo de corrupio continuo, soltando discursos e cantorias num enroquecimento talvez natural mas exagerado. Notou-se que há, por ali, ainda muito afrobeat e dark soul para diluir, nada que tenha impedido forte adesão mas uma leve sensação de incompreensão...
A onda de emo revival tem tanto de inofensivo como de irritante. No caso dos American Football, o tamanho e curva da agitação cresceu pouco, uma dimensão mediana que alguns dos adeptos ferrenhos presentes, certamente, classificaram como suprema. A nós, novatos nestes correntes e agueiros, fez-nos boa impressão as excelentes imagens diurnas e nocturnas, em movimento lento, de uma casa branca americana que serviu de fundo do concerto, um género de distracção cenográfica que, mesmo assim, não serviu para nos levar a mergulhar de cabeça. Molhámos os pés e chegou!
quinta-feira, 6 de junho de 2024
quarta-feira, 5 de junho de 2024
ROBERT FORSTER, M.Ou.C.o., Porto, 3 de Junho de 2024
Passaram perto de cinco anos sobre o encontro de amigos de Robert Forster, uma noite de histórias e lembranças vivificadas por muitas canções dos The Go-Betweens ou que o próprio nunca deixou de compor a solo. Estava na hora, pois, de um novo convívio geracional, notório na idade da maioria dos presentes, os tais cinquentões que ainda não perderam a pica de sair de casa uma segunda feira à noite para ainda se divertirem a dar sentido a um conjunto de memórias de inabalável qualidade.
O anfitrião recebeu os convidados com "Always", tema do mais recente e um pouco mais dorido disco "The Candle And The Flame", onde a doença da esposa se transformou numa prova de amor de chama eterna, mas não demorou a que pérolas mais antigas se fizessem notar - "Spring Rain", "Darlinghurst Nights" ou o tocante "Dive for Your Memory" haveriam de ir pontuando o serão com um sibilino soletrar colectivo das líricas, uma prova da eficácia com que Forster conta histórias, acentua lamentos ou confessa perdições. A inata capacidade para alinhar as palavras ou versos continua imparável, como o provaram novos temas de acentuado brilho como "I Don't do Drugs, I do Time", "Tender Years" ou a maravilha "Life Has Turned the Page".
O apogeu, como sempre, estava reservado para a trilogia inevitável "Here Comes the City" x "I'm Allright" x "Surfing Magazines" sem sequer sair do palco, um género de encore sem encore mas que haveria mesmo por acontecer perante o aplauso dos amigos ainda insatisfeitos - "Rock 'N' Roll Friend" serviria, pois, como despedida mas também como renovado abraço forte de amizade.
Confirmado, mais uma vez, o domínio da guitarra e das suas investidas, mesmo que o grau de eficácia se tenha notado menos efusivo e brincalhão, talvez explicado por um cansaço indisfarçável de uma digressão já com um mês e que só terminaria no dia de ontem. Entre comboios, hotéis e preocupações, há, mesmo assim, sempre tempo para relatos diários de acutilância imperdível. A noite portuense, segundo o próprio, foi cinco estrelas... galicia. Cheers, amigo, ainda e sempre, rock' 'n' roll!
HURRAY FOR THE RIFF RAFF, UM PERIGO!
Já faz alguns anos que não dispensamos as canções e os discos de Alynda Segarra aka Hurray for the Riff Raff. Em Fevereiro saiu mais um conjunto notável traduzido no nono álbum de originais "The Past Is Still Alive", um projecto de intimidade assumida agravada pela morte recente do pai.
Não têm sido difícil escolher temas, qual deles o melhor, para a nossa lista mensal mas o que fará parte da dose de Junho é verdadeiramente arrepiante... Chama-se "The World Is Dangerous", tem contribuição vocal do amigo Conor Oberst, mentor dos Bright Eyes, e é impossível não carregar no repeat sempre que chega a sua vez na entrada da lista. Um perigo!
A menina Alynda estará em Paredes de Coura dia 17 de Agosto próximo. Hurray... for the riff raff!
terça-feira, 4 de junho de 2024
ANVIL FX + USTAD NOOR BAKHSH + CZN, Serralves em Festa, Porto, 2 de Junho de 2024
A incursão de última hora e de rompante pela festa de Serralves resultou, mesmo assim, em três bons momentos ao vivo.
No palco do ténis a banda brasileira Anvil Fx agitava já a pequena plateia que não se resguardava do muito calor. A corrente vinda do palco foi de forte intensidade, um género de transe sintetizado e contínuo de electrónica de fim de noite ou início de madrugada nada habituada a luz solar e a multi-gerações. Para graúdos e infantis e sem restrições, o caudal dançante e agitador foi interposto por letras minimalistas e inflamadas de feição feminista, política ou contestatária, um agitprop de raiz na new wave, e até no punk, mas em dose industrial. Boa surpresa!
O mestre do benju balúchi Ustad Noor Bakhsh toca um velho benju elétrico que aparente ter caducado na idade mas que, executado por quem sabe, se apresenta mais que válido. O instrumento mistura a vibração de cordas por um género de teclado de máquina de escrever de sonoridade inebriante que, ligado a um amplificador, preencheu o imenso prado da quinta de Serralves de um exotismo irresistível. À canícula, mais que suportável para aqueles músicos aquela hora do dia, foi ganhando resistência um cada vez maior número de curiosos ouvintes interessados numa fruição enraizada lá para o Paquistão e Afeganistão mas que, e cada vez mais, não têm país ou nacionalidade. Ao contrário da última aparição na Casa da Música, marcada por um dia chuvoso de Novembro passado, o feitiço sonoro como que fez esquecer a solheira para nos elevar, ao longo de setenta minutos, a um cume ameno e fresco de uma qualquer montanha... sem nuvens. Inspirador!
O projecto de percussão CZN une as batidas de Valentina Magaletti e João Filipe Pais. São duas baterias e outros apetrechos criados de raiz que, em simultâneo, se enterlaçam em sonoridades hipnóticas, ora lentas ora rápidas, para criarem momentos dançantes ou de baloiço dinâmico que receberam forte aplauso de aprovação. Para descobrir e colorir...
sexta-feira, 31 de maio de 2024
JULIA HOLTER SENTA-SE EM BRAGA!
O anúncio feito hoje pela artista, com direito a poster de Radha Vishnubhotla, confirma que o concerto terá Dev Hoff no baixo, Beth Goodfellow na percussão e vozes e Tashi Wanda no sintetizador, formação semelhante à que a trouxe ao Parque da Cidade em Junho do ano passado. A oportunidade servirá para apresentar o novo álbum "Something in the Room She Moves" editado em Março.
quarta-feira, 29 de maio de 2024
EFTERKLANG, CÍRCULO COLECTIVO!
Há, por isso, ajudas e amizades convocadas de boa vontade como a de Zach Condom dos Beirut, que toca trompete no primeiro single "Getting Reminders", ou a da guatemalteca Mabe Fratti que empresta a voz e o seu violoncelo a "Plant", o mais recente e épico tema disponibilizado composto com Rune Mølgaard, fundador da banda mas que, entretanto, seguiu caminho em nome próprio. Sobram, ainda, entre os nove originais, duas canções com o coro Sønderjysk Pigekor, ou seja, o South Denmark Girls' Choir.
SISSOKO & GRIPPER, SINERGIA MÁGICA!
A kora de Ballaké Sissoko há muito que não toca sozinha. De parceria em parceria, de instrumento em instrumento, já se lhe juntou o violoncelo de Vicent Delarm, uma outra kora de Toumani Diabaté, a guitarra eléctrica de Jaj Mahal ou o piano de Ludovico Einaudi. Há agora uma outra sinergia de efeito mágico, desta vez com a guitarra clássica do sul-africano Derek Gripper e a merecer disco editado este mês.
Depois de alguns concertos juntos, foi em Londres que os dois se divertiram ao longo de três horas em estúdio, uma sessão de improviso assumido e que resultou em seis peças de encontro entre cordas e os respectivos instrumentos e não entre tradições, como convêm frisar. Gripper há muito que é um fascinado pela música africana, tendo arriscado passá-la para guitarra e experimentado um registo sério desta paixão com o álbum "One Night On Earth", uma aventura sonora de 2012 onde é à guitarra que os sons da kora se reinventam.
Depois de uma digressão pelos E.U.A. em Março passado, os dois irão apresentar o álbum editado pela Matsuli Music à África do Sul já em Junho, mas por estes dias Sissoko dedicou-se ao vivo em Paris a outra colaboração com o inglês Piers Faccini, amigo com que já toca há décadas e que resultou no tema original "The Fire Inside" publicado em 2022. Prometido está agora um álbum inteiro a meias...
Nem de propósito, alerta-se para o concerto imperdível que junta Ballaké Sissoko a Vincent Segal (violoncelo), Emile Parisien (saxofone) e Vincent Peirani (acordeão) marcado para o dia 5 de Julho no Auditório de Espinho, evento que faz parte do FIME-Festival Internacional de Música de Espinho a comemorar a 50ª edição!
terça-feira, 21 de maio de 2024
ENEMY, Jazz no Reservatório, Parque da Pasteleira, Porto, 19 de Maio de 2024
A segunda edição do ciclo de Jazz no Reservatório, que ocupa o exterior do reservatório do Museu do Porto, no parque da Pasteleira, estendeu-se no domingo a projetos internacionais com a presença dos ENEMY, um trio britânico e sueco que conta com o pianista Kit Downes, artista ECM que foi já premiado com, entre outros, um BBC e British Jazz Award, o baixista nórdico Petter Eldh e o baterista James Maddren.
O motivo da estreia e da visita tiveram por base o álbum "The Betrayal" editado pela finlandesa We Jazz Records em Setembro último e onde se reúnem uma dúzia de peças originais de Downes e Maddren registadas em estúdio num único dia e sem muitos ensaios. O truque é, obviamente, tocar muitas vezes ao vivo, com todos os riscos que essa estratégia comporta, mas a experiência portuense foi, de certeza e a esse nível, bastante enriquecedora para os músicos e, ainda mais, para o público que ocupou a quase totalidade das cadeiras do relvado!
Tamanho ganho vingou numa proximidade instrumental de intensidade rítmica compacta, onde a assinalável destreza e mestria dos executantes se enroscou em inúmeras reviravoltas e aparentes, mas saborosas, dessintonias. Intercalados, amiúde, misturaram-se o bruar do vento nos microfones, o cacarejar dos galináceos do parque, o piar das gaivotas ou o barulho crescente dos muitos aviões em rota de descida, situação a lembrar o que se repete no ténis de Serralves há muitos e bons anos... Nada que tivesse perturbado ou sequer incomodado um trio em plena fruição de irrepreensível excelência e muita, mas mesmo muita, categoria!
ISOBEL CAMPBELL, AZULAR O FUTURO!
Adiada para Junho, a edição de "Bow To Love" de Isobel Campbell que estava agendada para esta semana teve já lamiré notável em Fevereiro passado quando se de a ouvir "4316", um primeiro single que recebeu video de Richard Heslop, realizador britânico responsável por clips para os Queen, The Cure ou New Order e que assim, vinte anos depois, regressou ao activo.
O álbum, na senda da reinvenção assumida com "There Is No Other" de 2020, funciona como uma resposta a um microcosmo criado pelos tempos distópicos em que vivemos, um género de purga pop pronta a elevar a bondade, a criatividade e a luta. Um futuro, por isso e mesmo assim, em tons de azul, a cor apropriada de uma bonita edição em vinil exclusiva da loja Rough Trade.
sexta-feira, 17 de maio de 2024
HERMANOS GUTIÉRREZ, GUAY!
Em 2022 acabaram por ter um reconhecimento mais abrangente com o lançamento de "El Bueno y El Malo" na editora Easy Eye Sound, casa do guitarrista Dan Auerbach dos Black Keys que assumiu ainda a produção do disco. Um dos temas - "Tres Hermanos" - acabou por receber a prestação do próprio Auerbach. Nessa altura (Outubro), chegaram visitar o Porto para uma noite mais que esgotada nuns Maus Hábitos já em pré-reboliço e a fama foi-se avolumando, culminando com realização de um mais que requisitado Tiny Desk Concerts da rádio NPR americana. A receita, vencedora, terá em breve nova dose mística.
O quinto álbum, também ele produzido por Auerbach e com selo da mesma editora, chama-se "Sonido Cosmico" e está apontado chegar às lojas no dia 14 de Junho. A dimensão sonora ganha agora contornos de uma odisseia saborosa entre o kitch e o espiritual que poderá ser testada presencialmente a 14 de Agosto próximo, o primeiro dia do Festival Paredes de Coura. Guay!
quinta-feira, 16 de maio de 2024
DUETOS IMPROVÁVEIS #290
MILTON NASCIMENTO & ESPERANZA SPALDING
Outubro (Nascimento)
Álbum "Milton + Esperanza", Concord Records,
E.U.A., Agosto de 2024
terça-feira, 14 de maio de 2024
JULIA JACKLIN, SOLO EM GUIMARÃES!
segunda-feira, 13 de maio de 2024
MORENO VELOSO, IRRESISTÍVEL!
Na recente passagem por Espinho de Moreno Veloso ao lado do primo Bem Gil foram apresentados alguns temas de um novo álbum, como confessado, já então gravado mas de que não foi divulgado o título.
Pois bem, chama-se "Mundo Paralelo", é o primeiro, ao fim de dez anos, desde "Coisa Boa", e é temperado no samba e na MPB num vavivém de estúdios caseiros entre o Rio de Janeiro e Lisboa, cidades onde foram acertadas as colaborações (Domenico Lancellotti na bateria e glockenspiel, Pedro Sá na guitarra, Ricardo Dias Gomes no baixo e sintetizador e Rodrigo Bártolo nos sintetizadores) e afinações mas que não perde de vista a Salvador natal.
Entre os dez temas há uma versão de “Deixa Estar”, canção de Marina Lima gravada em 1998, e neles rodam e pairam o pai Caetano Veloso e a tia Maria Bethânia para quem compôs, com Luís Filipe de Lima, o tema "É de Hoje" que a mesma tia apreciou na perfeição mas que decidiu não gravar, segundo história contada no concerto espinhense.
Nele também se deu a conhecer o tema-título "Mundo Paralelo" composto com o conterrâneo Tiganá Santana e o fantástico "A Donzela se Casou", tocado com "prato-e-faca", método inicial usado no registo para o disco e para o que convidou a família (os irmãos Zeca e Tom, o pai Caetano e a tia Bethânia) a juntar-se ao ritmo do samba e da roda. Irresistível!
A SONHAR COM ADRIANNE LENKER!
A curta digressão pela Europa de Abril último levou Adrianne Lenker à Irlanda onde registou uma magnífica sessão a solo no elisabetano Ormond Castle para o projecto Other Voices. Vinte minutos de sonho para nos fazer sonhar com uma oportunidade semelhante... Até quando?
sexta-feira, 10 de maio de 2024
LATTIMORE E McCLEMENTS, PLANADOR!
O álbum de cinco peças foi como que "pintado" com sons e tons, onde a harpa se confunde nos sintetizadores, no piano ou no acordeão, preenchendo paisagens sonoras que tanto remeteram para memórias da estrada como para saudades de casa. Esticam-se, pois, os limites dos instrumentos, reinventando as dimensões de uma fusão que a prolongada chuva de um Dezembro em Los Angeles os confinou ao estúdio de McClements situado no próprio apartamento. A improvisação expandiu-se, naturalmente, a novas ideias e soluções que, em conjunto, são mesmo garantia de um voo planador levado por um vento... de beleza!
quinta-feira, 9 de maio de 2024
MAZARIN A DOIS PASSOS!
A apresentação ao vivo do excelente álbum "Pendular" que marca a estreia dos Mazarin em grande formato terá digressão já este mês, chegando ao Passos Manuel no dia 30 de Abril, quinta-feira (coincidência, no mesmo dia os BadBadNotGood tocam na Aula Magna lisboeta...)
O disco, já por aqui reomendado, tem versão de vinil amarelo exlusiva da loja Lucky Lux de Coimbra limitada a cinquenta exemplares numerados! Os caçadores de raridades poderão, sem certezas, tentar a sorte neste link.
quarta-feira, 8 de maio de 2024
FIELD MUSIC, RARIDADE EM VINIL!
Havia nessa composição inicial momentos que contam histórias de mineiros que foram colocados na lista negra por sindicalização ou que abordam a injustiça do vínculo anual, onde mineiros, na sua maioria analfabetos, se retiravam em cativeiro por medo de ficar sem trabalho. A suite foi depois modificada numa série de dez canções preparadas para sete metais da referida NASUWT Riverside Band e que agora estão reunidas num vinil exclusivo editado no Record Store Day de Abril último.
O disco, editado pela Daylight Saving Records, chama-se "Binding Time" e completa uma trilogia de lançamentos dos Field Music sobre temas sócio-históricos, seguindo-se a "Music for Drifters" de 2015 e "Making a New World" de 2021, projecto que examinou as consequências sociais e tecnológicas da Primeira Guerra Mundial. A sua audição é inexistente, não havendo online qualquer streaming destas novidades. O documentário abaixo, um excelente testemunho quanto aos métodos e truques do duo maravilha, permite descobrir e destapar um desses inéditos...
STEVE ALBINI (1962-2024)
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fotografia: Don Blandford |
Mas foi em palco que lhe tiramos a boa pinta. Guitarrista e vocalista dos Shellac, foi desde uma troca de piadas e risadas numa final de um concerto em Serralves em 2010, entre autógrafos e abraços, que passamos a reconhecer-lhe uma veia nonsense e sarcástica que se espalha, afinal, a muitas dos temas da banda. Da sua potência, da sua acutilância e desde 2012, saboreamos a prova no Parque da Cidade em todos os seus palcos como se fosse sempre a primeira vez. Albini faleceu no dia de ontem devido a um repentino ataque cardíaco. Peace!
terça-feira, 7 de maio de 2024
THE WOODENTOPS, EFEITO TERRA!
Não foi, pois, com surpresa que o disco "Fruits Of The Deep" foi editado no último mês precisamente no dia 22 de Abril, dia da Terra. O sucessor de "Granular Tales" de 2014 comporta catorze novos temas amadurecidos ao longo de uma década, usando uma variedade de fontes e recursos, que vão desde gravação analógica ao vivo até criação digital programada e mutante de software, usando filtragem gráfica e de áudio. A imagem da capa permitiu a inspiração para "The Fishermen Leave At Dusk", um longo tema, a encerrar o álbum, de imediato inconformismo e visionarismo que caracterizam uma banda, ainda e sempre, com os pés bem assentes na terra!
sexta-feira, 3 de maio de 2024
CHANTAL ACDA, COLECTIVO JAZZ!
Reza a história que os temas foram, quase sempre, obtidos num só take em Brooklyn, Nova Iorque, pela mestria do produtor Philip Weinrobe, afamado pelo seu trabalho com os Dirty Projectors ou Adrianne Lenker - talvez seja esta a explicação para uma versão de "Ruined" da mais recente maravilha de Lenker e que Acda decidiu corajosamente partilhar (para ouvir lá em baixo). O disco foi, depois, misturado pelo amigo Phill Brown em Praga.
O tema "I Can't Make You Love Me" é uma versão de Bonnie Raitt que recebeu imagens do amigo Borgar Magnason registadas numa praia de areia negra da Islândia. Acentua, com os restantes, uma maior aceitação do lado negro e frágil da sua vida, silenciado, como expressa o título do disco, durante muito tempo. A filha Lóa Bouwmeester desenhou a imagem da capa, recebeu design consagrado do holandês Rutger Zuydervelt e tem selo da Challenge Records.
quinta-feira, 2 de maio de 2024
CHILLY "GONZO" GONZALES!
Novo mês, novas de Chilly Gonzales. Depois do controverso "F*ck Wagner", anuncia-se o regresso a um projecto iniciado em 2011 chamado "The Unspeakable Chilly Gonzales" e onde o rap orquestral era receita arriscada.
Mais de uma década depois, em 2022, o artista voltou aos jogos de palavras onde não dispensa a menção a nomes de figurões como Ron Jeremy, Marie Kondo, Genghis Khan ou Phillip Glass, um misto de confissão e persuasão sob a alcunha de "Gonzo", tratamento antigo entre amigos e que agora foi escolhido como nome de álbum a editar pela Gentle Treat em Setembro, casa do próprio cromo.
A pergunta é pertinente - é este realmente um álbum de rap? Bem, prometidas estão peças instrumentais de genialidade assumida ("Fidelio" aproxima-se de Stravinsky e "Eau de Cologne" ganha estatuto de extravagância), uma estratégia para que os ouvintes assentem as rimas dos versos dos temas anteriores... Nada como experimentar este inenarrável "Poem"!
quarta-feira, 1 de maio de 2024
PAUL AUSTER (1947-2024)
Acumulamos, assim, muitas dessas aquisições que passamos a eleger para férias ou viagens de forma perfeitamente casuística. Descobrimos maravilhas, baralhamos as intrigas, mergulhamos em incertezas de enredos surpreendente e enigmáticos. Auster era, a esse nível, imbatível. Fica prometido que as quase novecentas páginas de "Um Homem em Chamas" serão no próximo verão leitura, certamente surpreendente, de cabeceira... Peace!
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